sexta-feira, 8 de julho de 2016

Descer ao Campo - Yves Winkin



“Aquele que é chamado “etnólogo”, na verdade ainda não “antropólogo”, permanece em casa, em seu escritório, na universidade, em seu instituto, em seu museu.” (pág.129)

“É uma primeira revolução, pois, de um lado, o antropólogo é e permanece durante muito tempo no campo mesmo, e, por outro lado, não encara mais aqueles que observa como graciosos animais exóticos, mas, sim, como pessoas dignas de respeito, cuja vida social se deve tentar reconstituir por observação às vezes participante.” (pág.130)

“A segunda grande revolução etnográfica ocorre no momento- e estamos no entreguerras, por volta de 1930-35- em que antropólogos americanos dizem com seus botões: “mas afinal, o que estamos fazendo em terra estrangeira, poderíamos muito bem fazer em nosso país.” (pág.130)

“A terceira revolução acontece nos anos 50, quando esses antropólogos “endóticos” (por oposição a “exóticos”) vão aos poucos libertando-se dessa tendência de fazer pesquisa sobre os pobres, os desajustados, os dominados, por exemplo, os índios, os camponeses, os mendigos, etc.” (pág.131)

“Para mim, a etnografia hoje é ao mesmo tempo uma arte e uma disciplina científica, que consiste em primeiro lugar em saber ver. É em seguida uma disciplina que exige saber estar com, com outros e consigo mesmo, quando você se encontra perante outras pessoas. Enfim, é uma arte que exige que se saiba retraduzir para um público terceiro (terceiro em relação aquilo que você estudou) e portanto que se saiba escrever. Arte de ver, arte de ser. Arte de escrever. São essas três competências que a etnografia convoca” (pág.132)
 
“uma vez que estejamos numa situação de interação, estamos, segundo ele, sob o controle uns dos outros.” (pág.135)

“ A noção de envolvimento acarreta a de “para-envolvimento” (involvement shield), O para-envolvimento são todas as estratégias que vamos utilizar pata não nos envolver – com toda legitimidade.” (pág.136)

“A ordem interacional é uma das modalidades da ordem social inteira. Como funciona a sociedade segundo ele? Funciona e ele não o nega, nas relações econômicas, nas relações sociais, nas estruturas de classe, etc, mas funciona também na interação. (pág.137)

“Toda infração da ordem de interação, toda ruptura das regras que regem a interação são igualmente rupturas da ordem social.(cf. Goffman 1988).” (pág.137)

“Todo antropólogo lhes dirá que seu instrumento de pesquisa essencial é o diário. Um diário escrito em duas colunas: a coluna da direta é para vocês, a coluna da esquerda é para as sucessivas releituras e para os comentários. Um diário mantido com muita regularidade, todas as noites, com uma disciplina que acaba tornando-se tão natural quanto a de uma viciado em jogging que não consegue dispensa-lo.” (pág.138)

“A segunda função do diário é empírica. Nele vocês anotarão tudo o que chamar a sua atenção durante as sessões de observação.” (pág.138)

“A terceira função do diário é reflexiva e analítica. Voces vão reler-se regularmente e fazer anotações.” (pág.139)

“A observação deve primeiro passar pelo trabalho a olho nu, pelas anotações feitas mais ou menos às pressas em campo e pelas longas reescrituras no diário, a noite, a beira do fogo, só muito mais tarde, bem estabelecidos, em seu sitio, vocês poderão eventualmente gravar seus dados.” (pág.139)

“gostaria por fim de dizer uma palavra sobre o que, a meu ver, não se deve fazer nunca: observação escondida.” (pág.140)

“ o trabalho etnográfico não é um trabalho simples, mas tampouco é algo que exija anos de formação. Podemos aprender muito graças a nossas próprias tentativas e erros, é claro, mas também graças a antropólogos que relatam suas próprias experiências de campo.” (pág.141)

“A primeira dificuldade que surge no trabalho de campo é a constatação: “Mas não estou vendo nada!”.” (pág.141)

“A segunda dificuldade é paralela à primeira: vocês correm o risco de sentir bem consigo mesmos.” (pág.142)

“A revolução “textualista”, como foi chamada, sem dúvida levou muitos antropólogos a tornarem-se narcisistas (Sanjek 1991), mas teve pelo menos o mérito de tê-los feito deixar de ser ingênuos.” (pág.143)

“ O treinamento para a escritura começa, assim, a fazer parte integrante da formação antropológica.” (pág.143)

“Aprende-se a escritura: pela leitura, pela imitação, pela prática – por sua transformação em habitus, se ousarmos exprimir-nos assim.” (pág.144)

“Comecem fazendo um trabalho bem circunscrito, utilizem seu lugar como um reservatório de comportamentos. Pouco a pouco, surgirá certa ordem a partir de seus dados e, para além disso, dos diferentes trabalhos de vocês, porque – e mais uma vez, emprego aqui um principio goffmaniano – a ordem interacional é também uma das modalidades da ordem social. Trabalhar sobre as interações é in fine sobre a sociedade inteira.” (pág.144)

“Se vocês estudarem com bastante minúcia um meio, um grupo, uma situação, logo extrairão muitas regularidades que fundam esse conjunto particular.” (pág.145)

“quanto mais precisos somos, mais estamos em condições de generalizar.” (pág.145)

“Pessoalmente, creio na pertinência do procedimento etnográfico. Os trabalhos que ele pode produzir estão longe de ser meras “monografias de aldeias”, como disseram alguns (sobretudo na França). Ele permite apreender o social, com todo o respeito que lhe é devido – e com todo o prazer que dele podemos retirar.” (pág.145)

Convite à Pesquisa - Hélio Salles Gentil



“A primeira condição para um bom projeto de pesquisa é a formulação clara e precisa da pergunta. Como se sabe, uma pergunta bem formulada já é meio caminho andado para se conseguir responder a ela. Toda pergunta já traz em sua formulação o encaminhamento da resposta. O que se quer saber? O que precisamente quero saber? Qual é a pergunta a que pretendo responder com meu trabalho de pesquisa?”. (Pág. 169)

“Trata-se de localizar bem o projeto no campo de saber a que pertence, esclarecendo a que linhagem teórica ele está filiado, esclarecendo a partir de que referências se está pensando e formulando a pergunta. Em termos mais específicos, trata-se de definir com que outros trabalhos ou autores se está dialogando. […] Nesse ponto é que uma pesquisa bibliográfica é indispensável. Faz parte de toda pesquisa, seja ela empírica ou teórica”. (Pág. 170)

“Definida a bibliografia básica, passamos à leitura. Prestar atenção à maneira como os autores formularam suas perguntas é uma maneira de descobrir como formular melhor a sua. Assim, ao ler um texto importante dentro da problemática que interessa, cabe procurar entender:
 a) Qual é a pergunta principal que o autor se fez inicialmente?
b) Que caminho ele tomou para procurar responder a ela?
c) Que respostas encontrou?”. (Pág. 170)

“É preciso mencionar aqui uma diferença que quase sempre escapa aos iniciantes no trabalho de pesquisa: a diferença entre o processo de investigação e o processo de apresentação do trabalho. Ao entrar em contato com as obras – artigos ou livros – em que os autores apresentam os resultados de suas investigações de forma ordenada, num discurso logicamente encadeado, pode-se acreditar que a pesquisa foi-se produzindo naquela mesma ordem, com a mesma clara e transparente concatenação lógica. É um equívoco. O trabalho real de investigação, principalmente o de investigação teórica, trabalho de pensamento, é cheio de idas e vindas, hesitações e confusões”. (Pág. 171)

“Depois das leituras, dos fichamentos e anotações exploratórias de suas ideias em confronto com as ideias formuladas pelos autores conhecidos, vem o trabalho de apresentar de forma ordenada o que se tem. As ideias devem ser ordenadas, não para simplesmente cumprir as exigências burocráticas deste ou daquele regulamento ou modelo, mas para se tornarem mais claras, inteligíveis, transmissíveis e fecundas”. (Pág. 171)


“Em termos esquemáticos podemos dizer que uma introdução deve apresentar da forma mais clara possível uma resposta às seguintes perguntas:
a) Qual é o tema ou assunto que lhe interessa pensar? Com que problemática você se preocupa aqui?
b) Que autores trabalharam sobre ela?
c) De que perspectiva? A partir de que ponto de vista?
d) Em que obras?
e) Com que resultados?
f) A partir desses resultados, que problemas permanecem? Que problemas não foram resolvidos pelos trabalhos já feitos (apresentados em d)? Que perguntas não foram respondidas por eles? Que perguntas ainda podem ser feitas?
g) Entre estas perguntas, qual é aquela a que você pretende responder com seu trabalho? Qual é, entre todos os problemas que compõem a problemática, o problema específico que você pretende investigar?
h) O que você pretende fazer para responder à pergunta específica que você escolheu? (a resposta aqui já aponta para a metodologia, a ser especificada adiante; aqui se faz só uma indicação muito geral, para marcar a pretensão do projeto)”. (Pág. 172)