“Aquele que é chamado “etnólogo”, na verdade ainda não
“antropólogo”, permanece em casa, em seu escritório, na universidade, em seu
instituto, em seu museu.” (pág.129)
“É uma primeira revolução, pois, de um lado, o antropólogo é
e permanece durante muito tempo no campo mesmo, e, por outro lado, não encara
mais aqueles que observa como graciosos animais exóticos, mas, sim, como
pessoas dignas de respeito, cuja vida social se deve tentar reconstituir por
observação às vezes participante.” (pág.130)
“A segunda grande revolução etnográfica ocorre no momento- e
estamos no entreguerras, por volta de 1930-35- em que antropólogos americanos
dizem com seus botões: “mas afinal, o que estamos fazendo em terra estrangeira,
poderíamos muito bem fazer em nosso país.” (pág.130)
“A terceira revolução acontece nos anos 50, quando esses
antropólogos “endóticos” (por oposição a “exóticos”) vão aos poucos
libertando-se dessa tendência de fazer pesquisa sobre os pobres, os
desajustados, os dominados, por exemplo, os índios, os camponeses, os mendigos,
etc.” (pág.131)
“Para mim, a etnografia hoje é ao mesmo tempo uma arte e uma
disciplina científica, que consiste em primeiro lugar em saber ver. É em
seguida uma disciplina que exige saber estar com, com outros e consigo mesmo,
quando você se encontra perante outras pessoas. Enfim, é uma arte que exige que
se saiba retraduzir para um público terceiro (terceiro em relação aquilo que
você estudou) e portanto que se saiba escrever. Arte de ver, arte de ser. Arte
de escrever. São essas três competências que a etnografia convoca” (pág.132)
“uma vez que estejamos numa situação de interação, estamos,
segundo ele, sob o controle uns dos outros.” (pág.135)
“ A noção de envolvimento acarreta a de “para-envolvimento”
(involvement shield), O para-envolvimento são todas as estratégias que vamos
utilizar pata não nos envolver – com toda legitimidade.” (pág.136)
“A ordem interacional é uma das modalidades da ordem social
inteira. Como funciona a sociedade segundo ele? Funciona e ele não o nega, nas
relações econômicas, nas relações sociais, nas estruturas de classe, etc, mas
funciona também na interação. (pág.137)
“Toda infração da ordem de interação, toda ruptura das
regras que regem a interação são igualmente rupturas da ordem social.(cf.
Goffman 1988).” (pág.137)
“Todo antropólogo lhes dirá que seu instrumento de pesquisa
essencial é o diário. Um diário escrito em duas colunas: a coluna da direta é
para vocês, a coluna da esquerda é para as sucessivas releituras e para os
comentários. Um diário mantido com muita regularidade, todas as noites, com uma
disciplina que acaba tornando-se tão natural quanto a de uma viciado em jogging
que não consegue dispensa-lo.” (pág.138)
“A segunda função do diário é empírica. Nele vocês anotarão
tudo o que chamar a sua atenção durante as sessões de observação.” (pág.138)
“A terceira função do diário é reflexiva e analítica. Voces
vão reler-se regularmente e fazer anotações.” (pág.139)
“A observação deve primeiro passar pelo trabalho a olho nu,
pelas anotações feitas mais ou menos às pressas em campo e pelas longas
reescrituras no diário, a noite, a beira do fogo, só muito mais tarde, bem
estabelecidos, em seu sitio, vocês poderão eventualmente gravar seus dados.”
(pág.139)
“gostaria por fim de dizer uma palavra sobre o que, a meu
ver, não se deve fazer nunca: observação escondida.” (pág.140)
“ o trabalho etnográfico não é um trabalho simples, mas
tampouco é algo que exija anos de formação. Podemos aprender muito graças a
nossas próprias tentativas e erros, é claro, mas também graças a antropólogos
que relatam suas próprias experiências de campo.” (pág.141)
“A primeira dificuldade que surge no trabalho de campo é a
constatação: “Mas não estou vendo nada!”.” (pág.141)
“A segunda dificuldade é paralela à primeira: vocês correm o
risco de sentir bem consigo mesmos.” (pág.142)
“A revolução “textualista”, como foi chamada, sem dúvida
levou muitos antropólogos a tornarem-se narcisistas (Sanjek 1991), mas teve
pelo menos o mérito de tê-los feito deixar de ser ingênuos.” (pág.143)
“ O treinamento para a escritura começa, assim, a fazer
parte integrante da formação antropológica.” (pág.143)
“Aprende-se a escritura: pela leitura, pela imitação, pela
prática – por sua transformação em habitus, se ousarmos exprimir-nos assim.”
(pág.144)
“Comecem fazendo um trabalho bem circunscrito, utilizem seu
lugar como um reservatório de comportamentos. Pouco a pouco, surgirá certa
ordem a partir de seus dados e, para além disso, dos diferentes trabalhos de
vocês, porque – e mais uma vez, emprego aqui um principio goffmaniano – a ordem
interacional é também uma das modalidades da ordem social. Trabalhar sobre as
interações é in fine sobre a sociedade inteira.” (pág.144)
“Se vocês estudarem com bastante minúcia um meio, um grupo,
uma situação, logo extrairão muitas regularidades que fundam esse conjunto
particular.” (pág.145)
“quanto mais precisos somos, mais estamos em condições de
generalizar.” (pág.145)
“Pessoalmente, creio na pertinência do procedimento
etnográfico. Os trabalhos que ele pode produzir estão longe de ser meras “monografias
de aldeias”, como disseram alguns (sobretudo na França). Ele permite apreender
o social, com todo o respeito que lhe é devido – e com todo o prazer que dele
podemos retirar.” (pág.145)