“As palavras determinam nosso pensamento porque não pensamos com
pensamentos, mas com palavras, não pensamos a partir de uma suposta genialidade
ou inteligência, mas a partir de nossas palavras. E pensar não é somente “raciocinar”
ou “calcular” ou “argumentar”, como nos tem sido ensinado algumas vezes, mas é
sobretudo dar sentido ao que somos e ao que nos acontece. E isto, o sentido ou
o sem-sentido, é algo que tem a ver com as palavras. E, portanto, também tem a
ver com as palavras o modo como nos colocamos diante de nós mesmos, diante dos
outros e diante do mundo em que vivemos. E o modo como agimos em relação a tudo
isso.” (pág. 21)
“Walter Benjamin, em um texto célebre, já observava a pobreza de
experiências que caracteriza o nosso mundo. Nunca se passaram tantas coisas,
mas a experiência é cada vez mais rara. Em primeiro lugar pelo excesso de
informação. A informação não é experiência. E mais, a informação não deixa lugar
para a experiência, ela é quase o contrário da experiência, quase uma
antiexperiência. Por isso a ênfase contemporânea na informação, em estar informados,
e toda a retórica destinada a constituir-nos como sujeitos informantes e
informados; a informação não faz outra coisa que cancelar nossas possibilidades
de experiência. O sujeito da informação sabe muitas coisas, passa seu tempo
buscando informação, o que mais o preocupa é não ter bastante informação; cada
vez sabe mais, cada vez está melhor informado, porém, com essa obsessão pela
informação e pelo saber (mas saber não no sentido de “sabedoria”, mas no sentido
de “estar informado”), o que consegue é que nada lhe aconteça.” (pág. 22)
“é que uma sociedade constituída sob o signo da informação é uma
sociedade na qual a experiência é impossível. Em segundo lugar, a experiência é
cada vez mais rara por excesso de opinião. O sujeito moderno é um sujeito
informado que, além disso, opina. É alguém que tem uma opinião supostamente
pessoal e supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica sobre tudo o
que se passa, sobre tudo aquilo de que tem informação. Para nós, a opinião,
como a informação, converteu-se em um imperativo. Em nossa arrogância, passamos
a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados. E se
alguém não tem opinião, se não tem uma posição própria sobre o que se passa, se
não tem um julgamento preparado sobre qualquer coisa que se lhe apresente,
sente-se em falso, como se lhe faltasse algo essencial. E pensa que tem de ter
uma opinião. Depois da informação, vem a opinião. No entanto, a obsessão pela
opinião também anula nossas possibilidades de experiência, também faz com que
nada nos aconteça.” (pág. 22)
“Em qualquer caso, seja como território de passagem, seja como lugar de
chegada ou como espaço do acontecer, o sujeito da experiência se define não por
sua atividade, mas por sua passividade, por sua receptividade, por sua
disponibilidade, por sua abertura. Trata-se, porém, de uma passividade anterior
à oposição entre ativo e passivo, de uma passividade feita de paixão, de
padecimento, de paciência, de atenção, como uma receptividade primeira, como
uma disponibilidade fundamental, como uma abertura essencial” (pág. 24)
“experiência é a passagem da existência, a passagem de um ser que não
tem essência ou razão ou fundamento, mas que simplesmente “existe” de uma forma
sempre singular, finita, imanente, contingente.” (pág. 25)
“Definir o sujeito da experiência como sujeito passional não significa
pensá-lo como incapaz de conhecimento, de compromisso ou ação. A experiência
funda também uma ordem epistemológica e uma ordem ética. O sujeito passional
tem também sua própria força, e essa força se expressa produtivamente em forma
de saber e em forma de práxis. O que ocorre é que se trata de um saber distinto
do saber científico e do saber da informação, e de uma práxis distinta daquela
da técnica e do trabalho” (pág. 26)
“o saber da experiência é um saber particular, subjetivo, relativo,
contingente, pessoal. Se a experiência não é o que acontece, mas o que nos
acontece, duas pessoas, ainda que enfrentem o mesmo acontecimento, não fazem a
mesma experiência. O acontecimento é comum, mas a experiência é para cada qual
sua, singular e de alguma maneira impossível de ser repetida. O saber da experiência
é um saber que não pode separar-se do indivíduo concreto em quem encarna. Não
está, como o conhecimento científico, fora de nós, mas somente tem sentido no
modo como configura uma personalidade, um caráter, uma sensibilidade ou, em
definitivo, uma forma humana singular de estar no mundo, que é por sua vez uma
ética (um modo de conduzir-se) e uma estética (um estilo). Por isso, também o
saber da experiência não pode beneficiar-se de qualquer alforria, quer dizer,
ninguém pode aprender da experiência de outro, a menos que essa experiência seja
de algum modo revivida e tornada própria.” (pág. 27)
“A vida humana se fez pobre e necessitada, e o conhecimento moderno já
não é o saber ativo que alimentava, iluminava e guiava a existência dos homens,
mas algo que flutua no ar, estéril e desligado dessa vida em que já não pode
encarnar-se.” (pág. 28)
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