“Dos Estados Unidos, conhecemos e consumimos principalmente
a cultura da direita. Nossa cultura de esquerda é mais diretamente europeia. ”
(pág. 166)
“A
história político-cultural brasileira é complexa. Suely Rolnik lembrava outro
dia a cisão fundamental na esquerda brasileira, na virada dos 1960-70, entre o
pessoal da contracultura e o pessoal da guerrilha, ou mais geralmente da
militância política. Lembro-me bem disso; essa diferença foi vivida
dramaticamente (mas também alegremente) por minha geração. Havia um conflito entre
o pessoal do chamado nacional-popular, do CPC, que possuía um projeto de
revolução ligado a uma ideia de cultura autenticamente nacional,
radical-reativa, pseudo-proletário-camponesa, e os tropicalistas, que eram
internacionalistas, simbioticistas, geléio-generalistas, tecno-primitivistas,
que saíam por cima (ou por fora) e por baixo (ou por dentro) da mediocridade
visada pelo projeto nacional-popular. Esse debate reencenava a grande discussão
anterior, a da Semana de Arte Moderna. Ele penetrava completamente na academia,
que estava organicamente ligada ao assunto, até porque vários teóricos faziam
parte dela, sobretudo no lado do nacional-popular. Depois o debate de alguma
maneira se perdeu. Hoje a academia não discute mais esses temas..” (pág. 166)
“Depois do tropicalismo, que foi de fato um movimento cultural de alcance
nacional, de repercussão vertical, que ia da academia até a juventude, que era teorizado
pelos críticos literários ao mesmo tempo em que seus discos eram comprados pela
garotada que tomava ácido no píer de Ipanema, não houve nada na mesma escala” (pág.
168)
“havia uma série de conflitos, e de repente o tropicalismo chegou para
resolver o problema de alguma maneira, porque ele fez a síntese. Não uma
síntese conjuntiva, mas uma “síntese disjuntiva”, diria Deleuze: Vicente
Celestino e John Cage. E essa é a resposta que a América Latina tem que dar
para a alienação cultural, é a única proposta de contra alienação plausível, a
única teoria de libertação e autonomia culturais produzida na América Latina”
(pág. 169)
“Essa oposição entre um pensamento da interioridade, da identidade, das
raízes, de um lado e do outro o pessoal da exterioridade, da desterritorialização,
do rizoma (para usar a linguagem do Deleuze) em vez das raízes, o pessoal do
internacional – essa oposição, a meu ver, é intrínseca à situação
latino-americana, à nossa esquizofrenia cultural, à orientação para fora, para
a Europa, que contraproduz uma orientação culpada para dentro, para seu país,
do qual ao mesmo tempo você tem vergonha e orgulho. Há uma situação muito
confortável da elite brasileira que é poder brincar de dominado quando olha
para fora, dizendo “vejam só como eles mandam na gente, nós somos uns pobres
coitados, estamos aqui dominados, explorados cultural e economicamente”, e
brincar de dominantes quando olhamos para dentro e mandamos a cozinheira fazer
nossa comida. Você é um explorado pela cultura francesa e pode dar um grito de guerra
contra a alienação cultural; mas é sempre um patrão que reclama da alienação
cultural..” (pág. 173)
“Éramos todos meninos do interior; inclusive os cariocas e paulistas –
nossa metrópole era estrangeira, apenas. Isso acabou. Hoje tudo está dado. Você
descarrega livro, pega tudo. Há uma democratização gigantesca, desde que você
tenha um computador de banda larga, que no Brasil talvez se expanda com esse
projeto do governo de pontos de inclusão digital, quiosques digitais, que é uma
coisa interessante, treinar jovens de pequenas cidades do interior para operar
internet. Há esse problema da perda de diferença, da estandartização, mas é
aquela coisa: fica tudo igual, mas algumas diferenças são potencializadas ao
mesmo tempo em que outras se equalizam. É uma coisa ambígua, feito a
globalização.” (pág. 177)
“Toda dádiva é interminável, é uma relação interminável. Toda dádiva
produz uma dívida, e essa relação da dádiva com a dívida é uma relação propriamente
interminável. Uma relação aberta vai ter que ser mantida, e só vai ser rompida
se houver alguma violência. E mesmo assim: a violência ela própria é uma relação.
A vingança é parte da lógica da dádiva”
(pág. 179)
“O que pode ser repensado é o estatuto da noção de criação, não para
dizer que não é mais possível criação, mas para redefini-lo de uma maneira
criativa, digamos assim. Temos que criar um outro conceito de criação.
Trabalhamos atualmente com um conceito, por um lado, velho como o Cristianismo
(criação bíblica) e, por outro lado, com o do romantismo, a criação como
manifestação, emanação de uma sensibilidade sui generis do indivíduo
privilegiado. Esses dois modos de conceber a criação não dão mais conta do que
está se processando nesse mundo atual. Está havendo tanta criação quanto havia
antes, não creio que esteja havendo menos. O que houve foi uma mudança das
condições. Mudaram as condições de criação, mudaram as condições de
distribuição. Mas Beethoven não vai aparecer de novo, não porque um gênio como
Beethoven não pode aparecer de novo, não é esse o problema. Pode aparecer com
certeza, se é que já não há um milhão por aí, talvez tenha muito mais do que naquela
época, já que há muito mais gente no planeta. O que não existe são as condições
iguais às que tinha Beethoven para ser um Beethoven.” (pág. 186)
“O ideal é mesmo tirar dos ricos para dar aos pobres. É isso aí, sempre
foi e sempre será. A antropofagia o que é? Tirar dos ricos. Entenda-se: “vamos
puxar da Europa o que nos interessa”. Vamos ser o outro em nossos próprios
termos. Pegar a vanguarda europeia, trazer para cá, e dar para as massas. “A
massa ainda comerá do biscoito fino que eu fabrico”. A Internet, ou as novas
tecnologias de informação, ou as novas formas de criação, permitem que nós
possamos, nós todos, realizar nosso sonho de infância e nos tornarmos Robin
Hood. Quem não quis ser Robin Hood? E depois, como o mundo virou brasileiro,
“tudo é Brasil”, a antropofagia mudou um pouco de contexto. A antropofagia deu
certo, nesse sentido.” (pág. 187)